Vagas sobrando, gente faltando

Vagas sobrando, gente faltando: o gargalo que trava o comércio no Centro

Sem conseguir contratar, lojistas de todos os segmentos voltam ao velho expediente de expor placas nas vitrines. A reportagem contabilizou 41 anúncios em apenas quatro das mais movimentadas ruas do Centro Histórico de SP
Karina Lignelli 27/Jan/2026

“Estamos contratando”. “Procura-se”. “Admite-se”. “Temos vagas” “Falta você em nosso time.” Em pleno mês de janeiro, tradicionalmente o mais fraco no comércio pois é tempo de balanço, de contabilizar lucros ou prejuízos ou dispensar temporários de fim de ano, chama a atenção, nesse início de 2026, a quantidade de placas em busca de funcionários na vitrine das lojas.
De pequenos lojistas a grandes varejistas, a verdade é que a falta de mão de obra persistente, relatada em diversas ocasiões pelo Diário do Comércio em 2025, tem levado os estabelecimentos a recorrerem, como última (e talvez desesperada) tentativa, ao velho expediente das plaquinhas para tentar atrair eventuais interessados por uma chance de emprego.
Andando apenas pelas ruas mais populares e movimentadas do miolo do Centro Histórico da capital paulista, como São Bento, Direita, Quinze de Novembro e Álvares Penteado, a reportagem contou 41 placas nos mais diversos tipos de comércio: lanchonetes, lojas de sapato, salões de beleza, óticas, lojas de moda, restaurantes por quilo. Até grandes redes com unidades na região, como Pernambucanas, Lojas Mel, Americanas e Torra ostentam plaquinhas em busca de colaboradores.

Na rua São Bento, a que tem a maior quantidade de placas (26), praticamente só não tem anúncio nos imóveis comerciais com placa de “aluga-se”. Mesmo no último quarteirão, que desemboca no Largo São Francisco e só tem cinco comércios ainda abertos, todos portam o anúncio. Entre os lojistas, a reclamação é a mesma: baixa adesão a jornadas longas, recusa pelo regime CLT, falta de comprometimento com horários e até o não comparecimento a entrevistas agendadas.

“Você marca seis entrevistas em um dia e ninguém aparece. Quando aparecem, muitos desistem depois de dois ou três dias”, afirma Karen Camila Moraes Militão, gerente comercial da Lolyta Souvenir Japan, que tem mais três unidades na Liberdade.

No salão de beleza Mofashi Beauty, que faz parte de um setor em que a dependência de mão de obra especializada é ainda maior, o impacto é direto no faturamento. A proprietária Carmem Campos afirma que a escassez de profissionais impede o crescimento do negócio. “Projetei o salão para seis cabeleireiros e quatro manicures. Hoje, tenho dois cabeleireiros e duas manicures. A demanda existe, mas falta gente para atender e a gente acaba perdendo dinheiro”, afirma ela, que enfrenta o mesmo problema em seu comércio de produtos de beleza, pois também procura operadores de loja e ajudante geral.

Segundo ela, muitos profissionais preferem atuar como prestadores de serviço, com carga horária reduzida e maior flexibilidade. “Tem gente que quer trabalhar só quatro horas por dia. Sábado, que antes era o melhor dia de faturamento, hoje é o pior porque ninguém quer trabalhar”, diz. “Às vezes a pessoa ganha o Bolsa Família e trabalha por conta. Não quer o trabalho fixo”, completa. Mesmo com aumento de comissões para tentar segurar os profissionais, Carmem afirma ter chegado ao limite. “Se eu aumentar mais, sou eu que vou trabalhar para o funcionário.”


Carmem Campos, dona do salão de beleza Mofashi Beauty, diz que seu negócio foi pensado para operar com seis cabeleireiros e quatro manicures, mas só hoje só consegue empregar dois de cada função

Essa dificuldade não se restringe aos pequenos negócios. Na rede de óticas Golden Mix, a gerente Francileide Oliveira conta que a loja busca funcionários há cerca de quatro meses. “As pessoas querem trabalhar sem compromisso. Às vezes até aceitam a vaga, mas não cumprem horário nem regras da empresa”, afirma.
Para ela, a falta de objetivos profissionais tem pesado, e a tendência atual é os candidatos ditarem as condições: “‘Se não for do jeito que eu quero, não vou ficar’, eles dizem. Parece que hoje as pessoas não precisam trabalhar.”

Em redes varejistas de maior porte, o cenário é semelhante. Poliana Teixeira, gerente da Pernambucanas da Rua Direita, afirma que o desafio não é apenas contratar, mas fazer com que os funcionários permaneçam. “Não é só empregar, é reter. As pessoas não querem trabalhar aos sábados, não querem ouvir feedback e têm pouca paciência para crescer aos poucos.”
Para ela, a adaptação dos líderes é fundamental. “Se as empresas não mudarem, o gestor não mudar a forma de conduzir… Os benefícios ajudam, mas uma boa gestão também ajuda bastante, estar próximo do colaborador, entender cada um.”

Na avaliação do economista Ricardo Rodil, da Crowe Macro Auditores e Consultores, a multiplicação de placas de “contrata-se” nos comércios do Centro de São Paulo e em mais pontos da cidade é o retrato visível da escassez de mão de obra. Ele compara o fenômeno às tradicionais placas de “Compra-se ouro”, que costumam aparecer em momentos de aperto econômico.
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Essas placas nunca abandonaram o cenário paulistano, diz, mas hoje realmente nota-se essa multiplicação – assim como a de comércios, de todos os tipos e tamanhos. Quando esse tipo de placa se espalha pelas ruas, é sinal de desequilíbrio. No caso atual, não falta vaga, falta gente disposta a ocupar essas vagas, avalia. Mas o ‘aperto’, nesse caso, é o desafio das empresas, e não apenas de contratar, mas de reter trabalhadores em um mercado cada vez mais competitivo e com novas exigências.

“Salário sozinho não resolve mais: as empresas precisam oferecer um conjunto de fatores que inclua ambiente de trabalho saudável, flexibilidade possível, perspectiva de crescimento e uma gestão mais próxima e humanizada”, diz. Em resumo, quem não se adaptar a esse novo perfil de trabalhador vai continuar com a placa na porta.

“Contrata-se freelancer”.

Para driblar o problema, lojistas têm apostado em comissões mais altas, bonificações por vendas, contratação de freelancers e até redução de expectativas de expansão. Para tentar contornar o problema da ‘aversão’ ao regime CLT, a Lolyta Souvenir Japan já colocou logo uma placa de “contrata-se freelancer” na unidade da São Bento. Mas não adiantou muito: mesmo pagando diária acima da média do mercado mais comissão sobre as vendas, a estratégia não tem dado certo.

“O freelancer não cria vínculo, muitas vezes combina e não aparece”, conta a gerente Karen Militão. Lá, quem tem ficado mesmo são jovens aprendizes de 16 a 18 anos e pessoas acima de 40, que mostram mais disposição e interesse em trabalhar. “Por isso, agora a empresa decidiu que vai voltar apenas à contratação CLT para garantir esse compromisso”, afirma.


Karen Militão, gerente da Lolyta Souvenir Japan, acredita que o cenário vai mudar. “Procuramos ter o diferencial de ser uma empresa humanizada para crescer, e quem estiver junto também”

Apesar do cenário desafiador, alguns comerciantes ainda acreditam em mudanças. “Acredito que esse cenário atual irá mudar, pois procuramos ter o diferencial de ser uma empresa humanizada para crescer, e quem estiver junto também”, diz Karen. Já Carmem é mais realista. “Não vejo melhora, só piora. Todo dia tem mais placa de vaga e menos gente querendo trabalhar.”

Francileide Oliveira foca em uma boa filtragem nas entrevistas para tentar identificar candidatos “com propósitos mais alinhados à empresa.” Já Poliana Teixeira reforça que, diante da escassez, o foco é apostar no desenvolvimento dos profissionais. “Se é o que a gente tem, é o que a gente vai ter que treinar”, se conforma.
Ricardo Patah, presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo e da central sindical União Geral dos Trabalhadores (UGT), destaca que os dois principais motivos para esse ‘apagão’ persistente de mão de obra são mais do que conhecidos: o salário muito baixo no comércio (piso de R$ 2.216) e as jornadas de trabalho exaustivas.
“Nos dois últimos anos, conseguimos aumento real de 1% no salário, mas ainda está muito defasado. E precisa acabar também a jornada 6×1, dois inibidores para trabalhar no comércio, que costuma ser porta de entrada para o mercado de trabalho.”

O dirigente cita um levantamento de 2025 feito pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras) que mostra que o comércio tem um déficit de 340 mil vagas que não conseguem ser preenchidas. “Precisaram até buscar gente no Exército para trabalhar em supermercado, onde a jornada é ainda mais extenuante do que no comércio em geral.”

Por isso, diz, as mobilizações pela jornada 5×2 vêm ganhando força: além de o país estar vivendo o menor índice de desemprego da série histórica do IBGE – o que acaba trazendo mais dificuldades na contratação -, os jovens, que antes começavam a vida profissional pelo comércio, hoje preferem trabalhar em tecnologia ou logística. E com jornada 5×2.

“Eles não despertam mais para trabalhar em um setor que paga pouco e se trabalha exageradamente. Se essas questões não forem resolvidas, vai continuar todo mundo procurando gente para preencher vagas, mas elas nunca serão preenchidas.”

 

Equipe Clemente Porto

Fonte: Diario do Comercio

IMAGEM: Diario do Comercio/divulgação