Por que as placas de contrata-se não saem das vitrines do comércio?

Por que as placas de ‘contrata-se’ não saem das vitrines do comércio?

Entre o ‘mito’ do pleno emprego, a ascensão da pejotização e o choque cultural das gerações Y e Z, o economista Ricardo Rodil, da Crowe Macro, analisa por que as empresas precisam se reinventar para atrair e reter talentos em uma economia cada vez mais aquecida por estímulos ao consumo
Karina Lignelli  -27/Jan/2026

O avanço das placas de “contrata-se” pelas ruas do Centro Histórico de São Paulo expõe uma contradição cada vez mais evidente no mercado de trabalho brasileiro. De um lado, o país ostenta uma das menores taxas de desemprego (5,2% no trimestre encerrado em novembro, segundo o IBGE). De outro, empresários de diferentes portes e setores relatam dificuldades crescentes e aparentemente crônicas para preencher vagas, tanto operacionais quanto qualificadas.

A ideia do ‘pleno emprego’ para justificar esse cenário, porém, é desmistificada pelo economista Ricardo Rodil, sócio-diretor da Crowe Macro Auditores e Consultores. Em entrevista ao Diário do Comércio, ele aponta que as estatísticas do IBGE não refletem o contingente de pessoas em atividades informais, prestadores de serviço (PJ) e, principalmente, dos dependentes de auxílios governamentais — grupo que ele denomina jocosamente, conforme diz, de “funcionários dos contribuintes”.

Rodil também argumenta que a economia se mantém aquecida devido a outros estímulos do Governo que impulsionam a demanda, forçando o varejo e os serviços a contratarem mais, mesmo sem um aumento correspondente na produção.

Além dos fatores econômicos, o especialista destaca uma mudança estrutural e comportamental profunda: a preferência pelo trabalho autônomo, que muitas vezes ignora riscos previdenciários, e a ascensão das gerações Y e Z, que priorizam o equilíbrio pessoal em vez da tradicional cultura de ‘vestir a camisa’ da empresa.

Diante desse cenário, o economista alerta que o desafio das organizações não é apenas recrutar, mas sim compreender e acolher os novos anseios geracionais para garantir a produtividade e a sobrevivência no mercado. Mas essa não representa uma solução definitiva. “A evolução do funcionário deve ser acompanhada a partir daí, mas a evolução tecnológica, com ênfase para a IA, pode diminuir a demanda por mão de obra, levando as gerações atuais e futuras diminuírem suas exigências.”

Rodil, argentino radicado no Brasil desde 1975, tem mais de 40 anos de experiência no ramo de auditoria e consultoria estratégica, já atuou como professor na Universidade de Córdoba e faz parte, como membro ou conselheiro, de entidades como Ibracon (auditores independentes), UNCTAD (Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento), IFAC (federação internacional dos contabilistas, no comitê de MPEs) e IASB (Conselho de normas internacionais de contabilidade). Também atua com mediação e arbitragem na Câmara Brasil-Líbano. Confira a entrevista a seguir:

 

Diário do Comércio – Mais de 40 daquelas velhas placas de “contrata-se” estão nas fachadas de estabelecimentos comerciais de quatro das principais ruas do Centro Histórico de São Paulo. Isso em pleno mês de janeiro, considerado fraco para o comércio, pois é mês de balanço, de saldão e de dispensar os extras de fim de ano que não foram efetivados. O que explica esse movimento?

Ricardo Rodil – Antes de mais nada, é indispensável considerar a situação macroeconômica. Mesmo sem um crescimento da economia nos níveis necessários para um desenvolvimento sustentável do país e a diminuição das desigualdades sociais, a atividade econômica se mantém bastante aquecida. Atribuo esse aquecimento, em grande parte, à liberação de recursos governamentais – em todos os níveis, especialmente o Federal. Estes estímulos ao consumo (demanda), sem a contrapartida em aumento da produção de bens e serviços, alimentam pressões inflacionárias, como subproduto do estímulo à atividade econômica. Consequência direta: as empresas, especialmente no varejo e no setor de serviços, tendem a contratar mais pessoal.

E antes de entrar no assunto contratações, quero abordar um assunto que considero encarado de modo errôneo por muitas pessoas: o de que o Brasil apresenta uma situação de ‘pleno emprego’. A expressão pleno emprego é utilizada em Economia para descrever uma situação que, no limite, implicaria que todas as pessoas que fazem parte da população economicamente ativa e que procuram emprego conseguem encontrar uma ocupação remunerada sem grandes esforços.

A exceção estaria representada pelo que os economistas chamam de ‘desemprego friccional’, aquele que resulta de pessoas temporariamente desocupadas, possivelmente na transição entre dois tipos de ocupações. Poderíamos dizer que isso significa ‘desemprego zero’. É neste aspecto que devemos chamar a atenção para uma peculiaridade das estatísticas de emprego publicadas pelo IBGE: o índice de desemprego contabiliza como ‘desempregados’ aquelas pessoas, dentro da população economicamente ativa, que estão procurando uma colocação.

Então o que parece, nesse cenário, é que não tem tanta gente precisando trabalhar.

Rodil – Isto quer dizer que deixam de entrar no cálculo dos desempregados uma série de indivíduos que não procuram emprego pelas mais diversas razões: um, exercem atividades informais; dois, encarcerados; três, exercem atividades sob a forma de pessoa jurídica (terceirização ou pejotização, entre as mais conhecidas, mas também as microempresas individuais ou MEIs) e quatro, muitíssimo importante, pessoas que se ‘acomodaram’ a viver de bolsas oferecidas pelo governo.

Jocosamente, mas nem tanto, costumo chamar estas pessoas de ‘funcionários dos contribuintes’: hoje, somam perto de 19 milhões. Contingente que, sozinho, mais que duplicaria a bela taxa de desemprego que ostentamos hoje.

 

Essa é uma das principais reclamações dos empregadores. E não acontece só em pequenos negócios, mas com grandes varejistas, que têm recorrido ao mesmo expediente das placas.

Rodil – Feitas essas considerações, vamos falar das ‘plaquinhas’. Incidentalmente, quero comentar que as placas de ‘compro ouro’ também têm se multiplicado, especialmente no Centro, de acordo com minha percepção. As plaquinhas nunca abandonaram o cenário paulistano, mas hoje realmente nota-se uma multiplicação em comércios de todos os tamanhos. O que está acontecendo? Vários fatores contribuem para esse ‘sumiço’ de mão de obra não qualificada. A dificuldade para contratação de mão de obra qualificada está também em patamares altos, mas esse é tema de outra conversa pois tem motivos diferentes.

Uma das questões é a preferência crescente das pessoas por atividades terceirizadas, atuando geralmente como autônomos ou pessoas jurídicas. Necessário fazer um alerta para essas pessoas e para as empresas que as contratam sob esse método: muitos (talvez a maioria) dos ‘empregados’ sob este sistema, talvez iludidos pelo que parecem ser ganhos atraentes imediatos, não levam em consideração os fatores negativos. Falta de 13º salário, falta de férias remuneradas, falta da proteção para doenças, etc. e, talvez o mais relevante, falta de contribuição previdenciária, que lhes tira a possibilidade de uma aposentadoria sossegada lá na frente. Não podemos dizer que os benefícios previdenciários no Brasil sejam a oitava maravilha do mundo, mas ajudam a compor a renda familiar quando se chega a uma idade em que o emprego e as atividades ficam bem mais restritas.

No que tange às empresas que contratam sob este sistema, a economia de custos imediata pode não compensar se, no futuro, a magia se voltar contra o mago, e alguns dos contratados acabarem processando o ‘patrão’ na Justiça do Trabalho. Em muitos casos, esses custos tardios podem jogar por terra os ganhos anteriores. Necessário salientar que, na Justiça do Trabalho, a jurisprudência não tem mostrado coerência – o que representa um risco significativo para as empresas.

 

Dá para dizer então que o mercado de trabalho passa por uma mudança estrutural, comportamental? 

Rodil – A segunda questão tem a ver com perfis geracionais e está no cerne do problema e, na minha opinião, tende a se agravar nas gerações futuras. A realidade mostra que a chamada Geração Y, que inclui os Millennials e muitas vezes se confunde com estes últimos, e a Geração Z, apresentam uma característica que muda a forma como encaram suas atividades: o ‘vestir a camisa’, longamente cultuado pelas gerações anteriores, não figura no quadro das suas prioridades de vida.

O equilíbrio entre vida social e trabalho ganhou uma importância que as gerações anteriores não davam e ocupa, meu palpite, o centro das atenções e objetivos das gerações Y e Z. Até aqui, simples constatação. É uma falha destes indivíduos? É uma falha das empresas? Nenhuma das duas. Trata-se de uma mudança cultural que tem de ser absorvida pelas empresas.

Estas terão de se reinventar para acolher, na medida do possível e do razoável, os anseios destas gerações, sem perder produtividade nem rentabilidade. O desafio é enorme e exige dos empresários uma profunda reflexão e uma atitude de compreensão desta nova realidade. Pertenço a uma empresa de serviços, em que recrutamento e retenção de talentos são cruciais para a sobrevivência. Fica cada dia mais difícil ‘encantar’ os candidatos e seduzi-los com a perspectiva de uma carreira na qual podem até chegar a ser sócios-proprietários da empresa.

 

Diante do atual cenário, quais são as perspectivas nesse sentido? O que precisa ser feito para mudar ou pelo menos minimizar esse problema?

Rodil – O que precisa ser feito para mudar ou pelo menos minimizar esse problema é a pergunta de um bilhão de dólares. Não tenho a resposta e não creio que exista uma resposta única. Tenho uma sobrinha Millennial que trabalha com muito afinco e talvez seja uma das exceções, mas elas existem. A primeira coisa a fazer é não rotular essa situação como um problema. As empresas podem vê-lo como um problema, mas, na realidade, trata-se de uma realidade que ninguém vai conseguir mudar radicalmente.

Cada situação tem de ser analisada em particular. Os empresários têm de se esforçar para compreender os anseios dos candidatos e tentar enxergar o que pode ser supérfluo ou superável. Só nesse momento poderá compor uma proposta de trabalho que acomode as expectativas da empresa e do candidato.

Mas não espere que isso representará uma solução definitiva. A evolução do funcionário deve ser acompanhada a partir daí, para eventuais mudanças nas condições, na tentativa de retenção. A evolução tecnológica, com ênfase para a inteligência artificial, poderá mudar parcialmente este panorama, pois, ao diminuir as demandas das empresas por mão de obra, (o movimento) deverá constranger as gerações Y, Z e futuras a diminuírem suas exigências.

 

Equipe Clemente Porto

Fonte: Diario do Comercio

IMAGEM: Freepik